domingo, 28 de maio de 2017

Antony and the Johnsons - Bird Gerhl

São papéis que rasgo com o que quero dizer, a noite arde lá fora, as horas seguem-se, e é como se eu não fizesse parte de nada, tudo existe sem mim. Os candeeiros continuam a iluminar a rua. A lua permanece, as estrelas e o fresco da janela. O homem de barba olha o horizonte todos os dias à mesma hora. Os carros passam invariavelmente ao mesmo ritmo. E tudo acontece, menos eu. Rasgo papeis do que digo e cada vez menos digo. E cada vez mais me oiço e cada vez mais rasgo por dentro aquilo que não digo. Um dia e outro dia ainda… e tudo continua a existir.

Andy, 2013

quarta-feira, 3 de maio de 2017

"… sentou-se para descansar e em breve fazia de conta que ela era uma mulher azul porque o crepúsculo mais tarde talvez fosse azul, faz de conta que fiava com fios de ouro as sensações, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que dela não estava em silêncio alvíssimo escorrendo sangue escarlate, e que ela não estivesse pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz de conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz de conta verde-cintilante…"

Clarice Lispector,
Uma aprenizagem ou o Livro dos prazeres
(excerto)

terça-feira, 25 de abril de 2017

POEMA

"Cumpridos os deveres compridos deixaram
De assediar minhas horas

Doce a liberdade retoma em si minha leveza antiga"


Sophia de Mello Breyner Andresen,
Ilhas


segunda-feira, 24 de abril de 2017

"Lá dentro a penumbra é fresca e vagarosa.
Nenhum rosto, nenhum vulto. 
As marcas do homem contando a história do homem."

Sophia de Mello Breyner Andresen 



Antony and the Johnsons - Bird Gerhl